por um ensino público, gratuito e de qualidade

Profª Nilza Cajado Bittencourt
13-jul-1915/30-nov-2006
São Paulo, junho de 2006
"Foi um privilégio. Profa. Nilza vai fazer 91 anos em agosto e por estar tão bem e disposta e trabalhando e bonita, a gente até fica com vergonha de já estar "condor". Entrar na casa dela é uma viagem instantânea no tempo: lembra as casas dos pais dos coleguinhas do Vocacional e um modo de vida do Brooklin da época. Móveis de madeira-madeira (ufa, nenhum MDF!), estofados, quadros. Disposição de sala para o ser humano e para a conversa, não para a TV, que nem vi. Uma beleza o trabalho dela de pintura em cerâmica de baixa temperatura. Ainda dá aulas. Tem 14 netos e 23 bisnetos. O aprendizado da conversa: realizar um trabalho com prazer e que só vai se aprimorando ao longo do tempo, aprimora quem o realiza = "cria alma nova", como disse a profa. em determinado momento, e reflete-se na vida afetiva, familiar, etc. No Vocacional, ela viveu uma "realização" que foi além da realização no trabalho em si.
Não é fácil para ex-aluno entrevistar ex-professor: a tentação de comentar as próprias reminiscências é grande e com facilidade a entrevista pode derivar para uma conversa; afinal, entrevistado e entrevistadores viveram momentos em comum.
Atenção: o livro "Orientação Educacional" era o primeiro do que deveria ser uma Série. Profa. Nilza, como supervisora da sua área, escreveu um livro e entregou o manuscrito para Ma. Nilde - e acredita que outros supervisores fizeram o mesmo. Será que este manuscrito está no Cedic/PUC? Onde estarão os outros? Não dá nem para imaginar que os outros livros da série estejam perdidos por aí - sem chance de publicação.
Ela tem planejamentos da área de ED - manuscritos, e também datilografados com correções manuscritas - tais como os que estão no Cedic. Creio que devam ser incorporados a esse acervo. Tem também textos da época que eram lidos nas "horas de estudo", cujos temas são: "novas gerações" e "conflito de gerações" (Paulo Gaudêncio), "independência responsável", "cidadania", "a vida em equipe", "alemanha ocupada"... Avaliação de atividades extra classe de uma unidade do vocacional do interior ("trabalho agrícola, alimentação e mortalidade infantil"). Uma apostila (eu achei muito interessante) falando sobre casa e mobiliário - e, dentro disto, descrevendo as características e propriedades das madeiras com que eram feitos os móveis.
A profª. comentou que foi convidada ao lançamento do livro-coletânea da Esméria, ao qual não compareceu, mas prometeram-lhe um exemplar, que ela ainda não recebeu, mas espera receber. Se alguém puder providenciar, ela ficaria contente.
Um fato digno de nota: uma de suas filhas não foi selecionada para o vocacional "por meio ponto". A professora considera este fato expressivo de um traço do vocacional: não fazer concessões, respeitar estritamente o 'justo'.
Sobre a Mª. Nilde: fala do quanto era pessoa corajosa, temerária até, de extrema capacidade e inteligência, determinada, de fibra, integralmente dedicada à realização e sucesso da experiência. E do quanto podia ser dura. Incapaz de fazer concessões, inflexível, angariou ressentimentos, por um lado, e inveja, por outro. Profa. Nilza acredita que o vocacional foi alvo da mente curta dos perseguidores, que interpretavam estudo do meio no campo como 'aproximação revolucionária com o campesinato'... mas também ao fato de que a Ma. Nilde adquiriu a certa altura muita independência com relação à Secretaria da Educação, de forma que o sucesso da experiência (que foi ficando cada vez mais evidente), não era creditado à Secretaria, mas ao SEV exclusivamente e à própria pessoa da Ma. Nilde... Se ela tivesse sido mais flexível, o vocacional teria existido por mais tempo? Ou chegou à marca dos nove anos justamente por causa dessa determinação às vezes dura? => foi a questão que se comentou, no final da entrevista.
A entrevista não foi longa. Eu estava um pouco preocupada, porque a profa. está em recuperação, teve recentemente pneumonia. E, de fato, a certa altura, começou a tossir e percebemos, Baruffaldi e eu, que era hora de encerrar."
por Renata Delduque (Turma/68)
|
|
![]() Profª Nilza junho/2006 |
|
Leia abaixo, um trecho da entrevista com a Profª Nilza realizada em 19 de junho de 2006:
"Meu nome é Nilza Cajado Bittencourt, eu fui professora de educação doméstica no vocacional desde o início, em 1962, só que eu não cheguei a fazer planejamento, eu fui convidada para trabalhar ali pelo prof. Joel Martins, que era meu colega na Padre Anchieta, e quando eu entrei já tinham feito planejamento, então eu entrei sem saber... Eu não conhecia nada do vocacional, eu só fiquei contente porque era perto de casa (riso), mas não conhecia nada a respeito do vocacional, então o começo foi bem difícil, porque o pessoal já tinha tudo planejado, um plano de idéias de como ia funcionar toda a área, e eu caí assim, de repente, sem saber ... e tive algumas dificuldades no começo. (Renata Delduque: A sra. antes estava na escola Padre Anchieta...) É, antes, eu era professora efetiva de trabalhos manuais e economia doméstica lá na Padre Anchieta, no Brás, e o Prof. Joel era professor de psicologia lá, então ele me convidou, porque gostava do meu trabalho. Eu não me sujeitava a só fazer 'paninho de amostra' (riso), eu abria mais para outras atividades; ele gostou do meu trabalho e me convidou para trabalhar no vocacional. Ele era o diretor do ginásio. Veio como diretor. A Ma. Nilde era supervisora geral e ele, diretor do ginásio, aqui do Oswaldo Aranha. (Renata Delduque: Então a sra. não passou pelo curso de preparação, veio a descobrir na prática o que era o vocacional...) É. Lógico que eu tive uma orientação dos próprios orientadores e tudo o mais, mas... (interrupção para atender à campainha) Era um sistema completamente diferente, eram os alunos que mudavam de sala e não o professor... então era completamente diferente do ensino oficial... Eu me entusiasmei imensamente pelo trabalho, achei interessantíssimo, gostei, adorei, e aí eu comecei a trabalhar com toda a dedicação que eu pude na ocasião e fui organizando o trabalho dentro da 'casa' de educação doméstica, que nós tinhamos como sala-ambiente e fui fazendo meu trabalho cada vez mais entusiasmada, sentindo assim que estava fazendo um trabalho muito bonito, muito atual, muito novo, não é? (Renata Delduque: Imagino que diante da outra escola, mesmo que boa, mas tradicional, teve um impacto, um período de adaptação... e o que significou a descoberta dessa coisa 'nova' que era o vocacional?) Sim, o impacto foi enorme. Para mim foi maravilhoso. Eu criei alma nova enfim, porque eu vinha de uma rotina de muitos anos, eu já estava lecionando há 20 anos no regime tradicional e descobri um horizonte novo de trabalho, muito mais interessante, muito mais de acordo com o que eu gostava de fazer, e então o meu trabalho foi muito importante, mesmo pra mim, pessoalmente, porque eu, à medida que ia progredindo no trabalho, ia progredindo também como pessoa... (Marco Baruffaldi: quer dizer que o convite do Prof. Joel foi um bom momento...) Nossa, foi imensamente agradável. Pra mim, foi ótimo. Eu consegui vir a fazer o que eu sempre queria realizar, mas sempre presa dentro daquela rotina do ensino tradicional. Mesmo no ensino tradicional, lá na Padre Anchieta, eu não me limitava a ficar na sala de aula. Eu levava os alunos para o porão, eu fazia comida, alguns pratos possíveis, com fogareiro de álcool.... (Marco Baruffaldi faz algum comentário - inaudível - risos gerais). Eu já tinha vontade de inovar a área e caiu assim como uma luva esse trabalho no vocacional. Depois, com os estudos, com os planejamentos, que eram muito constantes entre os professores, a gente foi realizando um trabalho junto, a fim de dar uma satisfação, uma realização pessoal para a gente. Lembro que uma vez eu disse para a Esméria, numa entrevista que ela fez comigo, que mesmo pessoalmente eu progredi muito trabalhando no vocacional. Fazíamos planejamento, tínhamos muitas horas de estudo, a gente aprendeu a conhecer o aluno, a saber que eles são diferentes, e que a gente precisava respeitar essa diferença."
RD
©2005 - 2010 - GVive - Associação dos Ex-Alunos e Amigos do Vocacional • Todos os direitos reservados.
Visitante Nº: 40616