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Capítulo V - Da Aldeia - Da Festa Kuarup

R.C. Jordão - Turma 64 - GEVOA


 
Pois bem, depois de havermos nos acomodado nos carros, seguimos em direção à aldeia. O trajeto era um pouco acidentado, em vista de o caminho ser um tanto precário. Como a aldeia não ficava distante, cerca de uns 15 quilômetros dali, logo chegamos. A nossa impressão inicial foi de que o lugar era bem maior do que imaginávamos. Na aldeia vimos cinco casas de forma oval cobertas de palha. Não dava para se distinguir o que era teto e o que era parede. Ambos faziam um conjunto só. A maior delas tinha possivelmente uns 20 metros de comprimento por uns 10 metros de largura e uns 6 metros de altura. Era uma construção imponente. Fomos recebidos pelo índio Turukawi chefe da tribo. Estava pintado com as cores vermelha e preta e usava um lindo cocar de penas. O ten. Montenegro que era bem conhecido dos índios, após haver trocado umas palavras com o cacique, logo nos conduziu para conhecermos o interior das casas. Lá chamadas de maloca. Entramos em fila pois a abertura das casas é estreita. No interior, pudemos ver redes esticadas, sendo as dos homens em posição superior às redes das mulheres. O centro da casa estava ocupado com cestos, panelas grandes e fogo de cozinhar. No teto, vimos muitas espigas de milho seco amarradas, armadilhas de pesca e alguns enfeites de penas. Um índio saboreava algo feito com mandioca. Perguntei ao ten. Montenegro. É só da mandioca que os índios se alimentam? O objetivo era fazer com que o tenente pudesse explicar de uma forma mais detalhada os tipos de alimentos que eram por eles consumidos e como faziam para obtê-los. Rapidamente nos respondeu: De fato, os índios dependem muito da mandioca.

 

Mas produzem ainda o milho, a batata doce, o cará, a cana de açúcar e até o amendoim. Nas roças, cultivam ainda o algodão e o fumo. Onde ficam as roças, alguém perguntou. O ten. respondeu: Elas são grandes e são individuais. Estão abertas na mata que circunda a aldeia. A alimentação básica dos índios consta ainda de beiju, feito com a mandioca que sempre é acompanhada de muito peixe, assado ou cozido.

 

Ainda tem o piqui e frutas silvestres, seguidas de pequenas caças. Somados todos, tenha os senhores a certeza de que se trata de uma alimentação rica, saudável e bem balanceada. Um inconveniente, se é que podemos chamar assim, é a distancia das roças em relação às casas da aldeia. O tempo médio gasto é de quase duas horas, sendo parte do trajeto feito a pé e parte de canoa. Dizem que isto se deve a qualidade da terra. Lá a terra é preta, não há vegetação rasteira e pouca invasão de formiga. Preferem assim. Nos retiramos da área interna das chamadas malocas. Lá fora, um grande número de índios estavam ocupados com os preparativos da grande festa. Afinal, naquela noite estaria o pátio repleto, com muita dança, música e gritos - hinos aos mortos. Isto tudo, além de farta comida servida aos convidados. Era um movimento de gente indo pra lá e pra cá intenso, enorme e sem fim. O ten. Montenegro, acompanhado de mais uns cinco índios que faziam nossa escolta, pediu para que nos acomodássemos, sentados num circulo, e passou a informar ao nosso grupo sobre aquilo que deveríamos ver logo à noite. A festa do Kwarup. Estávamos aproveitando uma sombra refletida pela grande casa indígena, pois o sol, a esta altura, se mostrava forte causando-nos muito calor.

 

O Kwarup, disse ele, que também é escrito como Kuarup, é um ritual dos grupos indígenas do Parque do Xingu realizado para homenagear os mortos. Os índios utilizam troncos feitos da madeira “kuarup” que são a representação do espírito dos mortos. A festa, poderíamos dizer, corresponderia a cerimônia de finados do homem branco. Entretanto, o Kuarup é uma festa alegre e exuberante, onde cada um coloca a sua melhor vestimenta na pele. Na visão dos índios, os mortos não querem ver os vivos tristes ou feios. Por isso, os índios capricham nas cores, nos ornamentos, querendo mostrar sua reverência, beleza e contentamento. A esta altura, podíamos identificar a presença de inúmeros índios que estavam iniciando as pinturas pelo corpo.

 

Prosseguiu o tenente: A cerimônia sempre ocorre em uma noite de lua cheia. Hoje, por sinal, ela estará no seu esplendor. Depois de dar mais um cem número de detalhes sobre a festa, consumindo uns bons cinqüenta minutos, finalizou. Acho que estou contando demais. O importante é que os senhores possam sentir e ver por si próprios. Senão perde a graça. Retornando ao nosso relato, eu vou aproveitar esta linha de bom senso lançada pelo tenente Montenegro e, igualmente, pedir licença aos amigos no sentido de apenas dar a nossa impressão do que vimos naquela noite, inesquecível por sinal, porém sem tantos detalhes. Tentarei resumir.

 

É que a cerimônia por si só desperta uma vontade de relatar tudo, nos fazendo esquecer do fato de que já se passaram mais de quarenta anos, e certamente, muitos de vocês já tiveram chance de ver esta grandiosa festa em inúmeras reportagens e documentários na TV. É aquilo mesmo. Lembro que o cenário era verdadeiramente fantástico. Os índios desta tribo, convidam as tribos amigas para evocarem juntas, as almas dos mortos que deixaram certa representatividade. Ainda noite, trazem da floresta vários toros de madeira, conforme o número dos que desapareceram, que vão ficando em linha reta no centro do terreiro em frente às malocas onde são recortados na forma humana de cada um. Passam a pintar neles as insígnias que em vida os fazia distinguir: pajés, guerreiros, caçadores ou até mesmo aqueles que maior numero de descendentes legaram à tribo. Enquanto são executados estes trabalhos, alguns homens com arco e flechas entoam hinos aos mortos. Tudo pronto, aos gritos de há-ha, há-há, vão os homens às malocas e de lá voltam acompanhados das mulheres e crianças. As mulheres, de cabelos soltos, trazendo algumas frutas e guloseimas, em largas folhas de palmeira, outras, ricos cocares, plumagem de coloridos vivos, braceletes e colares, aproximam-se em passos cadenciados. E em voz baixa travam com eles um pequeno diálogo em que parecem exprimir toda a gratidão, falando-lhes das saudades que deixaram, oferecendo-lhes ao mesmo tempo os frutos e enfeitando-os com os ricos cocares, as plumas, os braceletes.

 

Quando a noite chega, os homens entram no pátio trazendo uma espécie de tubo de palha incendiados, cuja luz faz refletir nos corpos untados de urucum a beleza dos seus músculos. Começa a dança do fogo. Primeiro em passos cadenciados depois em um crescendo cada vez maior, ao ritmo dos chocalhos dos maracás e das canções místicas, até se fazer ouvir a voz do pajé, implorando fazer voltar à vida aqueles mortos ilustres.

 

Neste exato momento a lua cheia se encontrava em seu máximo esplendor. De fato, aquilo tudo estava sendo registrado em nossa mente e nosso coração de forma permanente e até hoje, ao relembrar, sinto estar vivendo as mesmas sensações daqueles dias. Acho uma pena que poucas pessoas do mundo dito civilizado possam usufruir de tamanha beleza, de tamanha riqueza, de tamanha demonstração de ritos e hábitos culturais. O Brasil precisa ser melhor conhecido e explorado...

Feita esta digressão, voltemos a festa.

 

Terminando a evocação do pagé os homens se dispersam pelo terreno em pequenos grupos, enquanto só o pajé continua a entoar as suas loas até o alvorecer. De novo voltam as mulheres para ouvirem os cânticos que lhes anunciam ter o sol feito voltar à vida os mortos ilustres. Outras danças se seguem, iniciando mais um ciclo pela chamada dança da vida, onde os índios mais fortes trazem nos ombros uma longa vara verde, simbolizando os últimos nascimentos na comunidade. Agora, segue a cerimônia com a chamada huca-huca. Neste momento se faz um grande e intenso silêncio. Trata-se da homenagem aos últimos nascidos na tribo. Terminada a homenagem, as diversas tribos executam a luta denominada de "Uka-uka", que parece ser uma luta romana. Finalmente, encerra-se a cerimônia em uma festiva procissão, onde todos são levados para o rio, e lá entregues às suas águas.

 

Estas são as lembranças de um tempo que se foi mas não passou. Depois de uma noite de festas, de novidades, de cores, cantos e luzes, retornamos ao nosso alojamento.

 

Muitos de nós com os olhos marejados de lágrimas. Afinal, vivemos momentos que iriam marcar para sempre as nossas vidas. É muita emoção...

 

DO RETORNO AO ALOJAMENTO

 

Voltamos ao nosso alojamento. Estávamos muito cansados, depois de passar a noite toda na festa Kuarup. Porém, creio, todos nós havíamos saído de lá diferentes. Era um sentimento de orgulho e gratidão por termos tido aquela oportunidade de ouro. Passamos a entender e a respeitar muito mais a vida e a cultura daqueles homens que com seus costumes indígenas tem muito a ensinar ao mundo civilizado. Ao entrar na sala de estar, encontramos o Major Vahia que aguardava a nossa chegada. A sua expressão era de uma pessoa que já tinha passado por aquela experiência várias vezes e que tinha a certeza que nós havíamos adorado. Como é, pessoal? Estou ansioso para saber. Gostaram do que viram?

 

Naquele momento, um dos nossos Professores se adiantou e foi pessoalmente cumprimentar o Major Vahia. Disse em tom cordial: Major Vahia, quero em nome dos professores do Vocacional agradecer imensamente por tudo o que o senhor tem proporcionado. A cada dia que passamos aqui, mais vontade temos de ficar. Este pedaço do Brasil é uma verdadeira riqueza, um paraiso. Sinto que as experiências aqui vividas são tão importantes que deveriam ser obrigatórias, extendidas a todos os professores desta nação. O que vimos ontem não existe preço que pague. Ficará marcado para sempre. Não tenho palavras para agradecer este gesto da FAB. Tenha certeza que iremos passar o que aprendemos para os nossos alunos, amigos e as pessoas com quem mantemos convivio diário. Receba de todos nós o melhor Muito Obrigado. Todos aplaudiram.

 

O Major Vahia, meio desconsertado e emocionado, tentou disfarçar: Bem, mas não foi isto o que eu pretendia com a minha pergunta. Gostaram?? Todos nós, em coro, respondemos: Queremos mais!!!

 Naquele restante de dia, fomos descansar. Dormir mesmo. E sonhar com tudo o que vimos. Foi inacreditável.

 

 

 




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