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Capítulo III - Acordando na Selva

R.C. Jordão - Turma 64 - GEVOA


O relógio dispara a tocar. São 6:30. O sol começa a dar o ar da sua graça. Depois de uma noite silenciosa, apenas com os sons de grilos, sapos, de um ou outro pássaro e de latidos ao longe, peguei no sono, exausto. Dormi profundamente, sem lembrar naquela manhã se havia ou não sonhado. Sei disto porque normalmente sonho colorido e me lembro de algumas passagens ao me levantar. Não lembrava de nada. Dei uma longa espreguiçada. Estiquei bem os braços e dei um bocejo prolongado. Apesar de já estar de olhos abertos, custei um pouco para reconhecer que lugar era aquele. Isto fez com que logo me despertasse. Depois de tomar o meu banho, numa água morna, vesti-me e fui tomar o café da manhã. No caminho do quarto até o refeitório, encontrei alguns professores do Vocacional que também se dirigiam ao café. O café foi servido na mesa, com leite, pão, manteiga, suco de maracujá, e frutas da estação. As mesas foram aos poucos sendo ocupadas até a lotação do lugar estar completa. Naquela manhã, conforme as recomendações do dia anterior, deveríamos vestir roupas leves e, se possível, portar chapéu, pois estava programado um passeio de barco para conhecermos a região. Foi também recomendado que levássemos nossas máquinas fotográficas.

 

O calor que estava fazendo naquela hora era bastante e já dava mostra do que iríamos passar no restante do dia. A FAB, no alojamento, dispunha de quatro barcos, sendo dois em tamanho grande, com capacidade para até 8 pessoas e dois menores com capacidade de quatro pessoas. Para nosso deslocamento foram separados os barcos grandes, pois além da nossa turma, outros militares iriam nos acompanhar, como instrutores. Na saída do café já estavam aguardando no pátio os veículos que iriam nos conduzir até o passeio. Ao chegar, um a um foi se instalando e recebendo as boas vindas dos condutores dos barcos. Dentro dos barcos, já acomodados, recebemos as instruções sobre alguns procedimentos de segurança. Enquanto o barco estivesse em movimento não seria permitido ficar de pé. Deveríamos evitar nadar em razão de o rio, naquele local, ser farto em piranhas. Não seria liberado lançarmos qualquer objeto na água para não poluir o rio e nem qualquer tipo de alimento para os bichos que estivessem próximos à margem e ao barco. Depois de uma conferência entre os pilotos das embarcações, os motores foram acionados e se deu a partida.

 

Legal!! Tudo para nós era uma imensa novidade. O lugar era de uma beleza indescritível. O sol já se mostrava forte e nos forçava a manter os chapéus. Começamos a trocar impressões sobre aquilo que deveríamos ver. O barco da frente era comandado pelo Oficial Arnaldo. O de trás pelo sargento Messias. Depois de uns vinte minutos subindo o rio, a rotina das conversas a bordo foi quebrada. É que a professora que estava sentada à direita localizou um jacaré, deitado à margem, de boca escancarada, tomando sol. Sobre ele, alguns pássaros pequenos. O corpo do jacaré parecia imóvel. Neste ponto, alguém disse: E se nós pudéssemos ficar perto do jacaré e jogar cinzas de cigarro sobre os seus olhos. Será que ele iria se mexer? Ninguém respondeu. Preferimos tirar fotos do animal que a esta altura fechou sua enorme boca.

 

Mais a frente, vimos um cardume de peixes sendo seguido por ariranhas. A movimentação da água foi que nos chamou a atenção. Deles não pudemos registrar com fotos. Que pena. Nas margens voavam em grupo uns pássaros de penas brancas e bico longo. Receberam nossas atenções e mais fotos. Após vencermos mais alguns quilômetros de rio, os barcos encostaram na margem e pudemos descer um pouco. Naquela época, por não ser de chuvas, o rio estava mais baixo e nas margens se formavam verdadeiras praias. Agora, o inusitado. Sobre o que podemos chamar de areia estavam pousadas centenas de borboletas de cor amarela. Juntas, formavam um mar colorido, tal como se a margem estivesse pintada de amarelo. Era uma coloração viva. Mais fotos foram tiradas. A esta altura alguém espalhou um pouco da areia tentando afugentar as borboletas. Incrível! Elas permaneceram ali, voando a uns vinte centímetros do solo, todas voando em círculos.

 

Era uma beleza ver aquela cor em movimento. Fotos e mais fotos. A esta altura o piloto do nosso barco mostrou um rastro na areia. Em seguida, próximo dali, avistamos uma tartaruga de tamanho avantajado. Ele explicou que a tartaruga procura as margens do rio para botar ovos. Por isso deveria existir ovos enterrados. É só procurar. Lógico, foi o que fizemos. Era um tal de afundar nossas mãos na areia, ora aqui ora ali, ora mais distante, um verdadeiro garimpo. Ouviu-se um grito. Achei!!!!! Fomos todos ver. De fato tinham sido colocados uns seis ovos de tartaruga, dentro de um buraco. É que depois de postos, a tartaruga começa a cavar para escondê-los. O piloto do outro barco, Messias, ao ver os ovos disse: eu já comi não só os ovos como também sopa de tartaruga. O que? Sopa de tartaruga??? Pois é, aqui na mata, por vezes temos isto de cardápio. Mas como se faz? Logo alguém mais interessado perguntou.
É bastante simples. Depois de morta e limpa, reserva-se algumas partes de seu corpo, mergulha-se num caldo temperado e põe-se a cozinhar no fogo. E, tudo isso, aproveitando-se o próprio casco da tartaruga que vai deitado, de bruços, sobre o fogo. É muito bom. Puxa, jamais imaginei que isto seria possível, disse admirado. Alguém, ao meu lado, soltou um sonoro HUM..., com ar de nojo.

 

Depois do encontro do buraco com ovos e após tê-los sentido em nossas mãos, devolvemos os ovos no mesmo lugar, recobrindo-os com areia e tapando o tal buraco. Voltamos, numa conversa animada ao barco. Na volta ao alojamento pudemos ainda fotografar uma anta nadando e depois subindo no barranco do rio. Foi uma agitação só. Logo em seguida, a uns 500 metros abaixo, um bando de capivaras apareceu ruminando nas margens. Acho que era um bando de 10 ou 20. Outra vez de ouviu o clicar das máquinas. Vi um professor indagar ao nosso comandante do barco. E as onças? Chegam ao rio? Chegou a ver alguma? A resposta veio logo. Bem... onça, onça, ainda não vi. Sei que estão por aí. Confesso que tenho medo. Mas jaguatirica, cansei de ver. Por aqui vivem também a lontra, o tamanduá-bandeira, a cotia, e uma série de aves como o macuco, o flamingo, o gavião-real. Isto aqui é o paraíso natural da terra.

 

A conversa se desenrolava solta e o barco seguia firme em direção ao nosso destino final. A meia hora do tempo estimado para nossa chegada, fomos ainda surpreendidos por pequenos veados galheiros atravessando o rio e depois seguindo correndo por suas margens. Agora a conversa no barco tomou um ritmo desenfreado. Todos queriam falar ao mesmo tempo, dar a sua impressão daquilo que havíamos visto, da beleza do lugar, da riqueza de experiências proporcionadas por aquela viagem. Os barcos começam a diminuir o ritmo dos motores e logo se aproximaram do ancoradouro para nosso desembarque. Neste dia, pudemos colecionar inúmeras fotos para o nosso álbum. Fotos que jamais resistirão incólumes ao tempo. Na verdade, não precisaremos delas para lembrar das imagens vividas nesta viagem. Estão registradas de forma permanente em nossa memória. Junto com as melhores lembranças de fatos e acontecimentos de nossa vida. Voltamos ao alojamento e no resto do dia descansamos. É que amanhã está sendo programada a visita à aldeia Kamayurá. Estou muito ansioso. Valerá a pena aguardar.


 




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