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Ricardo Campos Jordão - Turma 64 - GEVOA
Começamos a nos retirar do interior do avião. Havia no solo uma camionete comprida com três bancos atrás, um jipe e um trator puxando uma carreta. O homem que conduzia o trator, pela sua fisionomia, era indígena. As malas, as caixas com mantimentos e diversos outros objetos trazidos de São Paulo para o Xingu começaram a ser descarregados. O trator se posicionou de modo a facilitar a acomodação daquelas coisas todas. Na pista, nos aguardando, encontrava-se o Major Vahia, conhecido piloto de caça a jato da FAB, do tipo F-8 Gloster Meteor que para época era um verdadeiro Mirage. Ele já estava no Parque juntamente com outros militares a fim de coordenar os trabalhos ligados à implantação do sistema de abastecimento das aeronaves.
A FAB tinha um alojamento espaçoso, porém, também encontrava-se em obras. O major Vahia era um homem bem alto e magro, de bigode aparado. Usava um macacão cheio de bolsos e zíperes, na cor azul marinho, com um óculos escuros Ray-ban. Sua fisionomia era de uma pessoa serena e alegre. Após os cumprimentos dos militares, com as já conhecidas continências, o Major Vahia se dirigiu ao Grupo, apresentando-se e dizendo que ele seria o responsável para que tivéssemos todo o apoio necessário para uma estada proveitosa naquele local. O comandante de nosso avião, capitão Haroldo, cuja pessoa, soube posteriormente, era um piloto que tinha muitas horas de vôo no lendário T-6 (Tê meia) acompanhou o seu colega até o Jipe. Esse avião, T-6, foi projetado pouco antes do início da II Guerra Mundial e foi o treinador mais utilizado até hoje na formação de pilotos militares. Chegou a ser apontado ironicamente como "ame-o ou deixe-o" pelas suas características peculiares. Aqueles que o dominavam podiam se orgulhar, encher o peito e dizer. Sou um piloto de T-6. Era um avião monomotor, com vasta artilharia e que tinha uma agilidade incrível. Fazia rasantes e voltava aos céus em poucos segundos. Chegou a ser utilizado pela Esquadrilha da Fumaça. Bem... depois voltamos à aviação.
Os professores do Vocacional foram acomodados na camionete e depois numa Kombi que lá chegou. Estávamos felizes, mas cansados da viagem. Fomos direto para o alojamento. Na entrada, numa sala tipo estar, haviam duas poltronas, um sofá grande e diversos quadros na parede que mostravam as várias fases da construção daquele pólo. O quarto dispunha de duas camas de solteiro e dois criados-mudos ao lado. Sobre estes, abajures pequenos. Havia ainda um ventilador de pás no teto. Uma poltrona verde escuro abaixo da janela e um tapete de barbantes que mais parecia peça de artesanato, no chão. A vista dava para um jardim bem cuidado. O banheiro, apesar de pequeno, era exageradamente limpo e suficiente o bastante para nosso banho e nossa higiene pessoal. Devido o horário da nossa chegada esbarrar no almoço, pudemos deixar nossas malas nos quartos e depois seguir para o refeitório. O ambiente era agradável, com mesas redondas e bem postas. A toalha, era branca e sem barra trabalhada. Ventiladores estavam instalados nas paredes e deixavam uma brisa adorável no ambiente.
A comida servida era simples, mas bem saborosa. Naquele primeiro dia, arroz, feijão, peixe ensopado, purê e uma salada com diversos legumes. Para tomar, suco de laranja. De sobremesa um delicioso doce de leite com queijo e goiabada. Os pratos e talheres tinham estampado o símbolo da asa da FAB. Lembro que o garfo era grande e feito de um material mais pesado. Gostei tanto do talher que cheguei a pedir um conjunto de faca, garfo e colher para levar comigo. Tenho até hoje! A refeição seguiu seu curso com animadas conversas e risadas pela lembrança de algum fato pitoresco já acontecido na viagem. Lembro que tomamos um belo susto ao nos aproximar da pista de pouso. O nosso piloto, Cap. Haroldo, antes de embicar o avião para a descida, deu umas duas voltas em torno da pista. Achamos que havia ocorrido algum problema com a aeronave. Por isso, vimos na expressão da Professora de Ciências um medo que parecia contagiar a todos. Por que estamos dando voltas? Por que este avião começou a fazer um barulho diferente nos motores? Por que não chegamos logo? Enfim, uma série de porquês sem resposta, pois não sabíamos ao certo a razão daquilo. Mas, na hora, o engraçado foi a fisionomia de medo estampada no rosto dela. Rimos da situação sem confessar que o medo era comum a quase todos que se encontravam naquele avião. Os "turistas" claro!
Após o almoço, saímos para andar um pouco e já nos familiarizar com aquele local que seria nossa casa por mais uns dias. No pátio interno cercado por várias casas que se destinavam aos militares, havia uma grande árvore. Junto à ela, um macaco preso numa fina corrente. Era um sagüi. Mostrava seus dentes afiados e circulava de lá para cá sem parar. Parecia querer dizer alguma coisa. Nos aproximamos com cuidado. Logo perto, um papagaio já domesticado, falava de modo repetido e sem parar "DUCA, DUCA, DUCA" Estava numa gaiola aberta, com poleiro, presa na parede do terraço de uma das casas. Vimos também vários cachorros andando soltos tal como se ali fosse o verdadeiro paraíso. (E era). De novidade, o que nos chamou a atenção foi um tucano e uma arara. Nunca havíamos estado em contato direto, ao vivo e em cores, com aquelas aves. Lindas. Penas de um colorido infinito. A arara logo começou a gritar estridente. O tucano continuou a bicar um pedaço de mamão cortado ao meio. Lembramo-nos que naquele local tais fatos deveriam ser corriqueiros. Afinal a natureza estava ali presente e bem instalada. Assim, naturalmente, ficamos ansiosos por conhecer mais, mais e mais. A esta altura, o sol começou a se esconder, transformando o céu numa coloração diferente. Decidimos retornar ao alojamento para descansar um pouco, pois não muito mais tarde chegaria a hora de jantar. Os horários praticados no alojamento eram rígidos e devíamos cumprir as regras ali estabelecidas. No trajeto, cruzamos com o Major Vahia que ironicamente indagou: Como é, já viram a onça pintada? Todos nós, "com cara de paisagem", sem saber se aquilo era sério ou não, dissemos incrédulos: Não...O Major replicou: Calma, vocês ainda verão. Amanhã tem mais. Muito mais.
Não percam o próximo capítulo.
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