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Ricardo Campos Jordão - Turma 64 - GEVOA
Para iniciar a tomada da cena, é preciso explicar, em apertada síntese, alguns detalhes. Meu pai, na época, oficial da FAB, tinha me prometido que algum dia iria promover uma viagem ao Xingu, levando alguns professores do Vocacional para conhecerem aquela maravilhosa região do Brasil Central. Iria planejar uma estada junto aos Irmãos Vila Boas, sertanistas que lá se instalaram e que dedicaram as suas vidas com trabalhos ligados aos índios brasileiros.
Pois bem, o dia chegou!
Fui, juntamente com papai, convidar os Professores para a tal viagem. Lógico que pela oportunidade que se descortinava, vários deles se propuseram a aceitar o convite. Os preparativos para a viagem consumiram diversas reuniões nas quais foram debatidos um cem número de detalhes, os locais a serem visitados, os equipamentos para melhor registrar aqueles momentos, as roupas recomendáveis, as vacinas, os cuidados exigidos, os acompanhantes, os alojamentos e assim por diante.
No dia marcado para a partida, estavam todos lá. Menos o meu pai. É que o Brigadeiro o escalou para uma outra viagem, numa missão diferente, e ele não pode nos acompanhar. No seu lugar, um comandante de meia idade com um co-piloto norte americano. Depois das despedidas regadas com lágrimas das pessoas que ficaram, o avião decolou. A viagem foi feita num lendário avião da FAB, Douglas, C-47, de dois motores a hélice, com interior contendo apenas um banco verde musgo de madeira comprido instalado junto às janelas. Causou uma certa frustração pelo desconforto e pela posição "de costas" para as janelas...Este avião foi também usado com bastante freqüência pelo Correio Aéreo Nacional.
Junto à bagagem, levávamos vários apetrechos para presentear e fazer trocas com os índios. Sabíamos daquilo que mais gostavam: coisas pequenas, coloridas, de alguma utilidade. Canivete, relógio, bijuteria, cigarros e outras "cossitas mais". O pacote de cigarros estampava a marca Mistura Fina. O maço, creio que era numa cor clara, entre o amarelo e o abóbora. Acho que é isso.
O avião fez sua primeira parada na Ilha do Bananal. A beleza vista de cima, com céu de brigadeiro, era de encher os olhos. Ficamos hospedados no Hotel "JK" de fundos para o Rio Araguaia. Por incrível que pareça, a tribo Carajás estava instalada ali perto. Não raro, os índios iam satisfazer suas curiosidades visitando a mesma área do hotel. Eram índios já acostumados com "homem branco". Sabiam falar de futebol e até da moeda norte americana... É sério. Estavam uns vestidos com bermudas e sem camisa, chinelos do tipo havaianas, com cocar de penas coloridas. Outros com calças largas e descalços. Ficavam assim perambulando, pra lá e pra cá. Tive oportunidade de fazer algumas trocas com artigos indígenas - artesanatos, pulseira de penas de aves, nas cores amarela, azul e vermelha, além de um tacape. Pra quem nunca foi "índio" tacape é um instrumento parecido com um bastão, utilizado em lutas. Era todo trabalhado e revestido com palha em diversas formas com desenhos.
No dia seguinte, fomos andar de barco a motor no Rio Araguaia. E pescar. Lembro que a minha emoção era fisgar o peixe e levá-lo para saboreá-lo no almoço. Mal sabia eu. A quantidade de peixes era enorme e quase não dava tempo para retirá-los da água e novamente lançar a isca. (Verdade. naquela fase não conhecia a tal conversa de pescador...)
Passamos na ilha do Bananal apenas dois dias. Tínhamos que prosseguir a viagem com destino ao Parque Nacional do Xingu. Nesse ponto, estou imaginando que a tal viagem deva ser contada em capítulos. É bastante rica em fatos e não quero cansar e nem tampouco abusar da bondade de meus eventuais amigos leitores.
Assim, caso exista alguém que - como um sobrevivente, queira saber o final da estória, por favor se manifeste. Caso contrário, "entrou por uma porta e saiu pela outra. Quem quiser que conte outra"........
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