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Capítulo VI - Da Despedida - Volta à São Paulo

Ricardo Campos de Jordão - T64 - GEVOA


 

 Acordamos bem dispostos. Aquele seria nosso ultimo dia no Parque. Fomos logo tomar café e sem muita demora nos reunir numa sala em que receberíamos as instruções dos militares que estavam nos acompanhando nesta viagem. Depois de estarmos acomodados nas cadeiras, entrou naquele ambiente um oficial vestido com roupas da selva (aquela toda cheia de pontos verdes, marrom, e beje, para ser confundida com as cores da mata) e com um leve sorriso disse: Bom dia a todos. Sou o capitão Terra. O Major Vahia me destacou para levá-los até o local onde ficam os irmãos Villas Boas. Porém, houve um imprevisto e eles tiveram que partir em direção a uma tribo que sofreu um conflito com sertanejos, já tendo ocorrido algumas baixas. Infelizmente esta nossa programação ficará prejudicada. Diante disso, pedi ao índio chamado Kuriatana pertencente a uma tribo próxima que viesse até aqui para poder estar junto aos senhores. É que ele já foi estudar em São Paulo, conhece a cidade e parte de seus costumes, e voltou recentemente para sua gente, aqui no Xingu. Imagino que esse encontro seja tão bom para os senhores como tenho certeza será pra ele. Pedi para que estivesse acompanhado de mais alguns índios jovens a fim de trazer as peças de artesanatos e objetos por eles confeccionados para que fossem mostrados aos senhores. Lembram-se das trocas? Os senhores poderão se organizar, reunindo, aqui na sala, o que ainda restou para oferecer aos índios. Caso necessitem de algo, é só nos procurar que estaremos a postos no setor de comunicações do alojamento. Ficará aqui o tenente Munhóz para acompanhá-los nesta visita, OK?

 

Lamentamos que aquela visita programada aos irmãos Villas Boas não tenha sido possível realizar. Porém, a idéia de trazer um indio que já conhece São Paulo foi das melhores. Retornamos aos nossos quartos e fomos apanhar tudo que tínhamos para fazer as trocas. Como era o último dia, teríamos que nos desfazer de todos os objetos. Voltamos à sala onde seria feito o encontro. Cerca de uma hora depois, chegaram os índios da tribo. Eram quatro rapazes, de fisionomia um pouco séria. Acho que estavam com vergonha. Todavia, na primeira meia hora de conversa, já esboçavam sorrisos nos seus rostos. O índio que havia estudado em São Paulo, perguntou se tínhamos saído com o avião no Campo de Marte, no bairro de Santana. Respondemos que sim. É que ele ficou alojado na casa de um militar naquele bairro, conhecendo o Parque da Aeronautica instalado naquele local. O jovem indio passou a se comunicar melhor. Conheci o Parque. Fui no hangar 03 onde "fica" os aviões, a pista e a torre. Fui na torre onde controla os aviões. Subi por uma escada até chegar lá em cima, na torre. Vi os aviões subindo e descendo. Me emprestaram um binóculo. Nunca tinha visto um. Cheguei a voar de helicóptero. Uma espécie de avião sem asa. Deu o maior medo. Um frio na barriga. Depois gostei. A esta altura, mais descontraídos, já não ficavam mais evitando nossas perguntas.

 

E então, um professor do Vocacional lançou a pergunta que instigava a nós todos: conta pra gente como é que foi essa sua ida para estudar em São Paulo. O índio respondeu: É que eu costumava ficar perto do alojamento da FAB e no Posto do senhor Orlando. Alí tinham pessoas que gostavam de conversar comigo. Acho que por eu ser muito curioso com as coisas. Depois de um tempo, o Senhor Orlando (Villas Boas) perguntou se eu queria estudar na cidade. Nem sabia onde era São Paulo. Eu disse que não queria não. Sei lá....Depois de passar um tempo, o senhor Orlando disse que poderia arrumar essa viagem. Aí achei bom e fui morar na casa do Capitão Araujo para estudar. Fiquei um tempo e voltei pro Xingu. A conversa rolou solta. Perguntas daqui e respostas dali e vice versa. De fato o índio era inteligente e de uma esperteza só. Sem que houvessemos pedido, o índio começou a tirar de uns balaios os objetos feitos na tribo. Tinham pulseiras de dentes de macaco, entalhes de madeira, imagens de bichos e de indios feitas de barro, pintadas. Tinha também enfeites com penas de aves coloridas, dentes de animais, uns enfeites para o braço e joelhos, e muitas outras coisas. O nosso grupo se reuniu em torno daquele material. Tinha bastante novidade para as trocas. Fiquei com um colar de penas intercaladas com dentes de macaco. Os nossos objetos de troca que estavam ainda disponíveis eram canivetes, iscas de anzol, linha de pesca, pentes, espelhos, linhas e agulhas de costura, botões de roupas de tamanhos variados, tesouras, estojo de lápis colorido e assim por diante. Em pouco tempo já tinhamos terminado com aquelas trocas. Passamos mais algumas horas numa conversa boa e depois nos despedimos do índio Kuriatana, que, junto com seus amiguinhos, levaram contentes os presentes recebidos do "homem branco".

 

O tenente Munhóz informou que agora poderíamos tirar umas fotos de animais da selva embalsamados que estavam numa espécie de museu. Lógico, a curiosidade falou mais alto. Fomos pegar as máquinas para tirar fotografias. O chamado museu ficava numa sala grande onde tinha espécies como jacaré, capivara, tatu, cobras e outros animais, inclusive uma onça. Indaguei ao Tenente se poderíamos levar os animais embalsamados para tirar fotos lá fora, no gramado. A idéia era colocar os bichos em diversas posições, tal como se nós estivéssemos caçando. Sem medo e com muita valentia. O tenente deu um largo sorriso e concordou. Fomos pegando um a um com cuidado. Naturalmente que a onça foi a primeira a sair. As fotos mostravam alguns segurando seu pescoço. Outros, com o braço dentro da boca aberta da bicha, cheia de dentes. Outros simulando estar montados sobre ela. As risadas sairam soltas. É que cada uma escolhia um bicho e ensaiava uma posição mais exótica, um motivo mais extravagante, para sair nas fotos. Imagine, aquela folia toda, só mesmo estandoos bichos naquele estado. Embalsamados, lógico!

 

Passada a folia, retornamos aos quartos para guardar nossos objetos recem trocados com os índios e arrumar nossas malas. Passamos a sentir uma profunda tristeza só de lembrar que deveríamos deixar aquele lugar. Fomos nos reunir para o almoço no refeitório. O Major Vahia combinou um almoço de despedida especial em homenagem a nossa visita ao Xingu. Nos acomodamos nas mesas e, em seguida ao almoço, fizemos uma oração para agradecer pelo passeio e por estarmos com ótima saúde. Agradecer, também, por não termos tido nenhum acidente no período e pedir´para que nossa volta fosse em total segurança para São Paulo.

 

Finalmente, a Professora de Matemática que quase ficou em definitivo no Xingu - casada com um índio, entregou uma carta de agradecimento assinada por todos nós ao Major Vahia. Todos aplaudiram aquele gesto de cordialidade. Encerrada aquela cerimônia simples, fomos levar nossas malas nos automóveis que aguardavam no pátio para irmos ao avião. O nosso comandante Capitão Haroldo já estava instalado em sua cabine, se preparando para a partida. No avião, iriam voltar para São Paulo menos militares. Praticamente só os professores do Vocacional e dois índios que iriam fazer tratamento médico. Os quatro militares presentes retornariam à sua base de origem.

 

A porta da aeronave foi logo fechada e imediatamente foram acionados os motores. Mais índios na lateral da pista acenando. O avião começou a roncar forte e se movimentar em direção à cabeceira da pista. Rotação máxima e lá vamos nós. Destino, São Paulo.

 

"A nossa viagem foi maravilhosa em quase tudo. A exceção foi a duração - foi curta demais!"

 

 




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