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Relatos de um Tempo que foi mas não passou!

Ricardo Campos de Jordão - Turma 64 - GEVOA


Visando colaborar de alguma forma com o seu pedido, abaixo estou relatando algumas passagens vividas no Vocacional.

Vou ver este filme. Está tudo bem focado. É só procurar lá dentro da mente. Ginásio Vocacional Osvaldo Aranha. Com certeza a melhor época da minha vida estudantil. Estava eu no inicio da adolescência. Da nossa casa na Rua Michigan até a Av. Portugal, o trajeto era feito de bicicleta. Uma poderosa e resistente bicicleta. Íamos três pessoas. Meu primo Armando nos pedais. Meu outro primo Toni atrás, sobre o bagageiro. E eu sentado sobre o guidão. Não havia a menor preocupação com o perigo, o inusitado, o diferente, o sem cabimento...Ao chegar no portão de entrada eu era o primeiro a saltar. Sempre a procura de algum amigo que já devia estar aguardando no pátio a hora de entrar para as aulas. O uniforme era composto de calça de brim cinza escuro, camisa branca de mangas curtas, agasalho cinza aberto no meio, com zíper e com o emblema GV na cor vermelha, no peito, do lado esquerdo. As meias, creio, eram na cor branca para acomodar os insubstituíveis tênis. Tínhamos armários individuais instalados ao longo dos corredores que eram próprios para guardar nossos objetos - pastas, uniforme de ginástica, avental para as aulas de artes plásticas e artes industriais, além de uma enorme quantidade de coisas que não tinham nenhum proveito imediato. O pátio coberto estava sempre lotado. Ali era o local dos encontros entre amigos, misturando-se com os funcionários e alguns professores que iriam começar a jornada. Nas aulas a minha equipe era formada por uma três ou quatro pessoas.

 

Lembro-me da fisionomia delas, porém, continuo péssimo em memorizar nomes. Com certeza lá estava o Eduardo Marafanti (cabelos lisos sobre a testa) e o Antonio Grisi (exímio instrumentista de violão). Decidimos batizá-la com o nome mais charmoso e importante da época: "Equipe Alvorada" Havia até o desenho num papel cartolina simbolizando o Palácio com seus arcos em forma de "U" (querendo fazer referência ao Palácio do Governo, em Brasília, que estava costumeiramente estampado nos jornais e revistas, fazendo já a sua fama). Das meninas, posso lembrar de muitas fisionomias e poucos nomes. Silvana Cappannari e Maria Regina Vieira da Mota. Tínhamos anotado no caderno os dias com as respectivas aulas e horários. Posso recordar de algumas; português, matemática, estudos sociais, artes plásticas, artes industriais, economia doméstica, práticas comerciais, ciências, educação sexual, educação física, inglês, educação musical, teatro e orientação pedagógica. Na matéria de estudos sociais, me recordo que os alunos do primeiro ano estavam envolvidos com o estudo da Comunidade (bairro e cidade).

 

Lembro numa aula de artes plásticas estar sentado sobre a guia da calçada da Av. Portugal, em frente ao prédio do Vocacional, com uma prancheta, lápis e algumas folhas de papel em branco, para fazer o desenho do prédio e das casas ao lado. Tudo em perspectiva! No segundo ano, o estudo era sobre o Estado de São Paulo. Fomos viajar para a cidade de Barretos, de trem. Conhecemos, entre outras tantas coisas, o Vocacional que também se instalou naquela cidade. No terceiro ano, o estudo se voltava para o Brasil. Tivemos a oportunidade de viajar para Minas Gerais. Imagine, conhecemos o interior da Gruta Maquiné, seguidos por guias que iluminavam o caminho com lanternas... Nesta viagem fomos, como sempre, acompanhados por cultos e dedicados professores que a todo instante enriqueciam nossos momentos com ensinamentos acerca da vegetação, do relevo, da formação rochosa, da população, das atividades comerciais e industriais e um cem número de informações que até os dias atuais nos servem de apoio. E tudo isso, faziam com o maior respeito, com o maior interesse e carinho, conseguindo alcançar os melhores resultados da sagrada missão de educar, de ensinar. Pessoas que se dedicaram verdadeiramente para o Magistério, feito com competência e amor. São pessoas inesquecíveis, especiais em nossas vidas.


No quarto ano, o estudo se voltava para o mundo. Que pena, agora as viagens foram interrompidas de vez. Não era por falta de interesse e sim por falta de condições financeiras para um empreendimento de tamanho vulto. As aulas de artes industriais eram aguardadas com muita ansiedade. Um salão enorme abarrotado de máquinas dos mais diversos tipos, bancadas, ferramentas, esquadros, madeiras, e tudo sob a supervisão de professores por demais conhecedores do ofício. Era tudo de bom...E tudo funcionava com a maior perfeição. Na aula de ciências, por vezes tínhamos que dissecar algum bicho. Ora o sapo era a bola da vez, ora o rato branco era posto na mesa de alvenaria revestida de azulejos da mesma cor para ser objeto de estudos. Já na aula de práticas comerciais, estou me vendo diante de uma máquina de escrever Remington, treinando a digitação, sem olhar para o teclado - "a,s,d,f,g espaço. a,s,d,f,g espaço, a s d f g espaço." Quem poderia esquecer uma passagem dessa! Na aula de economia doméstica me recordo mais do ambiente, do local, porque tínhamos também que aprender a acomodar os móveis, a decorar a sala, a dividir os espaços. Sei que havia um momento destinado ao estudo da etiqueta e aos afazeres na cozinha. Hoje sou um homem que adora sua casa e adora cozinhar.


Será que isto é resultado também dessas experiências? Na aula de educação física, tínhamos ginástica de solo, basquete, handebol, corridas, salto em altura e assim por diante. O Professor era um craque no basquete. Não havia bola que fosse por ele arremessada e não caísse na cesta. Também treinava o dia todo, todos os dias!!! Lembro de ter feito um trabalho em equipe sobre as Olimpíadas, com uma capa que era o desenho símbolo daquela competição (arcos entrelaçados coloridos) Ficou um luxo. Tiramos a nota máxima. Na aula de música, estou enxergando o "diapasão" e os alunos cantando o Hino Nacional. Tenho orgulho de desde aquela época saber com segurança a letra do nosso Hino, um dos mais belos se comparado com os Hinos das outras nações. As matérias básicas como português, havia muita leitura de livros de autores famosos, gramática, redação e interpretação de texto. Matemática lembro pouco, pela minha falta de afinidade com a matéria. Sei que sou bom em percentuais, em razão da minha profissão... A nossa orientadora educacional era para nós - jovens adolescentes, o símbolo da mulher bonita e desejada. (Será que posso dizer isto?) Muitas vezes aprontávamos alguma encrenca apenas para ter um encontro forçado com ela...Coisas de crianças levadas! Ah, merece também registro o fato de o Vocacional proporcionar num amplo refeitório o almoço que era servido sobre pratos em bandeja. Fazíamos a fila para entrar e todos portavam um cartão para que fosse feita alguma anotação. Acho que era o dia da semana. Não lembro bem. Todavia, da comida... essa eu lembro. Era farta, elaborada com capricho, uma delícia!!
No final do dia, após ter passado na escola o período da manhã e quase toda a tarde, retornávamos para as nossas casas, cansados, mas felizes.
Éramos felizes e sabíamos!!!

 

De vez em quando, muito de vez em quando, eu e meus amigos - Olha lá o Antonio Grisi Sandoval, saíamos antes do horário para ir até o Parque do Ibirapuera alugar um barquinho a motor para passear no lago. É, é este mesmo lago que hoje não se pode sequer chegar perto pela poluição de suas águas. Numa dessas "matadas de aulas" conseguimos fundir o motor do barco, ficando parados no meio do lago, pedindo socorro para sermos puxados até a margem. Foi o maior sufoco, além da vergonha. O dono do barco disse que iria cobrar o conserto. Imagine, logo pra quem (nós, duros de pedra, sem um tostão...)

 

Tenho saudades daqueles tempos em que a vida não era tão complicada. Bastava viver. Era muita alegria, entusiasmo, e um mundo todo para ser descoberto.
Sei que sou uma pessoa feliz. E tenho a certeza que a experiência colhida por todos os alunos que vivenciaram a Era Vocacional são pessoas também felizes, pois tiveram na sua formação as melhores referências de ensino já praticadas neste País. Penso que também por isso, somos responsáveis pelas mudanças necessárias em prol do bem comum.


Vamos tentar unir nossas forças e nos concentrar num trabalho que possa, de alguma forma, manter a chama do Vocacional sempre acesa, viabilizando a continuidade dos exemplos que nos foram ofertados pelos nossos dedicados Professores. A eles toda a nossa imensa gratidão.

Ricardo Campos Jordão

(Lembrar da época do Vocacional é praticar terapia para a alma. Esta foi mais uma passagem marcante e divertida. )




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