Destaques:

Memorial Vocacional

(Legado de Maria Nilde)

 


(PROJETO DE PATRIMÔNIO CULTURAL, PESQUISA E AÇÃO EDUCACIONAL)

 

I. JUSTIFICATIVA:

 

O presente Projeto tem como primeira função possibilitar o resgate de todos os materiais referentes à extinta experiência dos Colégios Vocacionais da rede pública de São Paulo.
Fundados a partir de 1961-62 se instalaram seis unidades nas seguintes cidades:

 

- Capital – Colégio Vocacional Estadual “Osvaldo Aranha”
- Americana – Ginásio Vocacional Estadual “Papa João XXIII”
- Rio Claro – Ginásio Vocacional Estadual “Chanceler Raul Fernandes”
- Barretos – Ginásio Vocacional Estadual “Embaixador Macedo Soares”
- Batatais- Ginásio Vocacional Estadual Candido Portinari
- São Caetano do Sul – Ginásio Vocacional Estadual de Vila Santa Maria.

 

    Todas as unidades eram coordenadas pelo Serviço do Ensino Vocacional, órgão subordinado diretamente ao Gabinete do Secretário da Educação do Estado de São Paulo. O Serviço do Ensino Vocacional se estruturou durante 8 anos e na sua fase final contava com: setor de Pesquisa Sociológica; Setor Administrativo; Setor de Pesquisa Psicopedagógica; Setor de Treinamento do Pessoal do Magistério; Setor de Projetos de Prédios Escolares; Setor de Materiais de Apoio Pedagógico; Setor de Recursos Audiovisuais e Biblioteca.
    Esta rede de ensino, conforme se comprova por documentos anexos foi extinta pelas forças militares em meados de 1969. Seus dirigentes, professores e vários alunos foram presos, processados, aposentados pelo Ato Institucional n° 5 e outros atos arbitrários. As escolas foram invadidas em 12 de dezembro de 1969 pelo Exército e pela Polícia Militar. Nesta invasão muitos materiais foram danificados e outra parte levada para os porões do Quartel do II° Exército. Nessa ocasião, alunos, professores e pais trataram de esconder tudo o que possuíam e de esconder aquilo que pôde ser salvo das escolas.
    Durante 16 anos estes materiais estão dispersos com uns e outros. Uma parte significativa pôde ser resgatada e está em poder da profa. Maria Nilde Mascellani, ex-coordenadora geral da experiência Educacional Vocacional, mais precisamente, em seu escritório de Assessoria Educacional.
Com o advento do novo regime no Brasil, muitos professores, estudantes universitários, secundaristas e técnicos de diferentes níveis têm se interessado pela experiência; este interesse varia desde a necessidade de reconstrução histórica até a elaboração de teses passando pelo debate da política educacional brasileira no momento atual.
    Como Coordenadora do escritório RENOV, como ex-Coordenadora do Serviço do Ensino Vocacional, passados os anos da mais dura repressão fiz o que me foi possível para resguardar os materiais referentes àquela experiência.
    Entretanto há dificuldades que uma pessoa sozinha não pode superar, sejam as dificuldades de localização e busca dos materiais sejam as de gastos materiais para manutenção e pagamento de uma ou duas pessoas que possam se incumbir de sua catalogação, fichamento, etc.
    Torna-se difícil também tentar organizar o material existente em meu poder e o que vem sendo localizado sem dispor de um espaço físico satisfatório, não só para a guarda como para a consulta.
     Penso que não somente eu mas outros interessados desejaremos publicar vários títulos. Não se trata de minha parte de um interesse puramente acadêmico mas de cumprir o dever de por a público tudo o que caracterizou a experiência, de passar a legítima versão da história já que os organismos de segurança se esmeraram em denegri-la e as “ortodoxias” fiéis à repressão produziram teses com a exclusiva finalidade de caracterizar toda e pedagogia ali desenvolvida ora como tecnicismo pedagógico ora como mais uma tentativa do escolanovismo.
    Há pois do ponto de vista histórico, cultural, social, político e educacional, muito o que produzir para a formação de novos educadores brasileiros e para o conhecimento do alunado dos diferentes níveis.
Julgo que este Projeto deveria ter uma dimensão mobilizadora do debate educacional no Brasil dos dias atuais. Não penso numa biblioteca estática mas num local onde a elaboração histórica seria objeto de cursos, seminários e debates.
    As tentativas feitas junto ao poder público – Secretaria da Educação, da Cultura – foram infrutíferas. O Estado sempre alega não dispor de verbas para qualquer tipo de trabalho que não se enquadre em suas rotinas. Correríamos também o risco de perda dos materiais em qualquer alteração de Governo ou de Regime Político que viesse a ocorrer. A solução pelo lado das Igrejas – Católica ou Evangélica – segue também uma cansativa burocracia e já percebi que tal Projeto não se casa com as prioridades alegadas por elas.
    Penso pois numa modesta Sociedade que possa resguardar todo o acervo, possibilitar a consulta e incentivar o debate educacional visando a formação de novas consciências entre os educadores. É nesses termos que proponho a Sociedade Memorial Vocacional.

 

II. OBJETIVOS :

 

    1) Resgatar os documentos e materiais que se referem à planificação, execução, avaliação e extinção da experiência dos Ginásios e Colégios Vocacionais do Estado que funcionaram de 1961 a meados de 1969.
    2) Coletar e manter organizados depoimentos de ex-alunos, ex-professores, ex-diretores, técnicos dos Ginásios Vocacionais e do Serviço do Ensino Vocacional assim como de pais de alunos e pessoas da comunidade escolar desta rede.
    3) Organizar funcionalmente todo o acervo e possibilitar a consulta do mesmo aos interessados.
    4) Possibilitar estudos, teses, publicações que tragam à história da educação brasileira a legítima versão sobre a prática educacional desenvolvida nas referidas escolas.
    5) Incentivar, através de cursos, seminários e debates, a recuperação daquela experiência no sentido de contribuir para a elaboração de projetos da educação nacional.

 

III. COMPOSIÇÃO DA EQUIPE :

 

    A Sociedade Memorial Vocacional será composta por um grupo de pessoas que tendo vivido a experiência do Ensino Vocacional se mantiveram até a presente data fiéis à sua filosofia e solidárias na defesa das pessoas atingidas e na guarda dos materiais documentais.
     Elas serão escolhidas entre ex-alunos, ex-professores e pais da época da extinção – 1969.
    A Direção ficará a meu cargo não só porque me responsabilizo pela iniciativa deste Projeto como também porque investi recursos e coragem desde 1970 para que significativa parte do acervo fosse resguardada.
    Julgo que a Diretoria deva ser recomposta de cinco em cinco anos afim de que se tenha tempo suficiente para cumprir uma plataforma de trabalho. Os Estatutos da Sociedade evidentemente, regulamentarão sua instituição e funcionamento.

 

IV. LOCAL DE FUNCIONAMENTO :

 

    É preciso que se disponha de um imóvel com três ou quatro salas de tamanho médio e se possível uma de tamanho maior para cursos, etc. A casa deverá ser alugada ou adquirida para tal fim, de preferência esta última alternativa pois o custo de aluguéis varia muito assim como a legislação que os regulamenta.


 

V. EQUIPAMENTO :

 

    Haverá necessidade de equipamentos simples como: estantes, mesas, cadeiras, arquivos, máquina de escrever, telefone. Deverá contar com uma máquina xerox pois os materiais não poderão sair da sede sequer a título de empréstimo. Outros equipamentos leves incorporam a descrição anexa.

 

VI. MATERIAL DE CONSUMO :

 

    Caixas de papelão, caixas para fotos, para slides, para fitas gravadas, fichas para catalogação, papel sulfite, canetas, tesouras, grampeadores, furadores, fitas para máquina de escrever, fitas para máquina de calcular, etc.

 

São Paulo, março / 1986.

 

Maria Nilde Mascellani


* Cópia cedida por Márcia Roncatti T63
Reprodução e digitação por Imma Marques para GVive- 27/07/2006


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